No te creas una palabra

[Publicado originalmente em 2012 no site Livros de Design] 

Essa é a versão da editora espanhola Promopress para o livro Visible Signs, de David Crow, lançado originalmente em 2003 pela editora AVA, do Reino Unido.



O que à primeira vista até parece um desses livros para decorar a sala de estar, na verdade é "uma introdução à semiótica", segundo seu subtítulo. No te creas uma palavra (2008) é teórico e atraente, uma combinação quase inédita. A capa desta tradução foi ilustrada por David Cabrera, mas o  projeto editorial, assinado pelo próprio autor, permanece. Projeto esse que apresenta o conteúdo com tipografia em corpo generoso, com a grade de diagramação à mostra e muitos exemplos visuais, ideal para inspirar professores que enfrentam o desafio de ensinar semiótica a estudantes adolescentes.

O livro reúne, em seus nove capítulos, uma série de textos breves que proporcionam uma aproximação a conceitos de semiótica e linguística orientados a quem pretende interferir na cultura visual. Cada um dos capítulos exibe um tema, desenvolve-o em poucas páginas e, para fixar conceitos, traz um portfolio mostrando o emprego prático da teoria em identidade visual, ilustração, tipografia, cartaz e fotografia – para sanar definitivamente qualquer possibilidade de dúvidas.

Os primeiros dois capítulos são os mais densos, já que introduzem Saussure e Peirce, com toda a terminologia essencial para entendê-los. Os textos que seguem são um apanhado bem substancial sobre um pouco de tudo que possa interessar de Barthes, Eco e Bourdieu. O objetivo de Crow é questionar o papel do profissional que se comunica visualmente, e alertar ao fato de que toda escolha em um projeto é produção de sentido, completa a comunicação e deve ser levada a sério.
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SUMÁRIO

Introducción
1. componentes:
Saussure | Peirce | portafolio
2. formación del significado:
categorias | semiosis | valor, sintagma e paradigma | metáfora | portafolio
3. lectura del signo
el lector | Barthes | portafolio
4. texto e imagen
Los tres mensajes | anclaje y relevo
DADOS TÉCNICOS

Editora: Promopress
Ano de publicação:2008
Edição: 1ª (em espanhol)
Formato: 22 x 30cm
Nº de páginas: 192



   
          Acabamento: Brochura
         Cores: 4/4
         Fontes: FF Din e Bodoni
         Ilustrações: Emily Alston e  
         Michael O’Shaughness


SOBRE O AUTOR
David Crow é designer e pesquisador, além de Decano e Pró-reitor da Faculdade de Arte e Design da Manchester Metropolitan University. Antes de voltar-se ao meio acadêmico trabalhou com Design para o campo artístico e para a indústria fonográfica, com clientes como Rolling Stones Records, Virgin Records, Phonogram e The Royal Shakespeare Company.

Design para um mundo complexo

[Publicado originalmente em 2012 no site Livros de Design]
Muito se tem falado sobre o livro Design para um mundo complexo, do Rafael Cardoso, então, para matar a curiosidade, aproveitei as férias no Brasil e garanti meu exemplar. 

Depois de começar a leitura com notas sobre tempo, espaço e memória, até hesitei em considerar esse texto para “lançamentos”, já que a pré-venda do título começou no dia 26/01 e um mês é bastante tempo neste mundo – que nem deixou de ser real e agora também é complexo.

Design para um mundo complexo, como se percebe, é uma homenagem ao Design for the Real World e tem como propósito voltar a algumas questões apresentadas nos anos 1970 pelo austríaco Victor Papanek, agora com um olhar sobre o mundo de hoje. Nesse sentido, trata de evidenciar as contundentes mudanças entre os anos 1960, que concebem o ensino do Design no Brasil, e a atualidade, para uma necessária mudança de paradigma no âmbito educacional.

Guiado pela prática peirciana de decodificar o sensível, linguagem, significado e produção de sentido aparecem como caminhos para entender todo tipo de artefato. Rafael Cardoso nos ajuda a perceber que enquanto as ideias são mutantes os objetos são perenes, e que Design, mercadoria, produto e lixo se separam (ou se encontram) em dinâmicas de significação. Questiona a ideia de “funcionalidade”, critica o descaso no ensino do Design em relação ao pós-uso dos produtos, discorre sobre a complexidade do imaterial e do material em situações de uso, estruturas, redes, teias e interfaces. Isso tudo sem dar razão para o leitor franzir a testa.

O livro pode ser caracterizado de diversas formas, menos como monográfico, e ainda que lá pelas tantas ensaie um conceito para “Design”, tampouco é um livro de respostas, mas dá algumas pistas. Dependendo do repertório de quem lê, ajuda a encaixar algumas peças que podem andar soltas no seu entendimento. Com formato compacto (12 x 18cm), de leitura leve e divertida, repleta de exemplos ilustrativos, abre uma série de janelas para reflexões densas que fazem dele um baita livro. Sem falar no projeto gráfico: impecável.

DADOS TÉCNICOS

Editora: Cosac Naify
Gráfica: Loyola
Tiragem: 3 mil exemplares
Ano de publicação: 2012
Edição: 1ª
Formato: 12 x 18 cm 
Nº de páginas: 264



   
          Papel: Kraft ouro 30% reciclado
          Acabamento: Brochura com sobrecapa
          Cores: 1/1
          Fontes: Sentinel e Gotham
          Ilustrações: Francisco França
          Quarta-capa: André Stolarski


SOBRE O AUTOR
Os designers devem conhecer Rafael Cardoso através de livros como Uma introdução a história do Design (Blucher, 2000), de quando ele ainda era CARDOSO DENIS, ou ainda O design brasileiro antes do design (Cosac Naify, 2005) e Impresso no Brasil: Destaques da história gráfica no acervo da Biblioteca Nacional (Verso Brasil, 2009), mas ele também escreve contos e romances, além de livros sobre arte, já que é PhD em história da arte.

Silêncio. Shut up. ¿Por qué no te callas?

Se existem segredos para aprender coisas novas eu os domino com maestria e vou contar (foco de luz milagrosa surgindo entre as nuvens). O primeiro é começar cedo. Se já não é mais cedo, elimina-se a opção. O primeiro é ter um bom motivo. Mo-ti-va-ção. E não tem melhor motivo que uma necessidade. Uma obrigação linda pra chamar de sua. É só escolher: uma viagem dos sonhos, um plano B genial, um amor cinematográfico. Pode escolher mesmo, vá em frente, aventure-se.



Eu aprendi inglês com o primeiro-primeiro segredo. Dos 11 aos 18, da forma institucional, com um milhão de horas-aula, provas, algumas séries na tv a cabo e músicas. Sim! Mú-si-cas. Porque apreder tem que ser divertido. Mas só senti que sabia mesmo falar quando, já universitária, para conhecer gente, me inscrevi em um grupo de conversação. Basicamente, líamos e discutíamos alguns assuntos, assistíamos filmes. Nessa época acho que eu falava melhor em inglês que em português. Além disso, descobri que eu me apresentava para o mundo de modo diferente em português, começando pelo tom da voz, a gestualidade, era todo um personagem. ¿E se eu não falasse português? ¿E se eu tivesse nascido no Canadá? Idiomas novos ajudam a conhecer-se e reinventar-se.

Eu aprendi espanhol para fazer mestrado. Mentira. Eu comecei a aprender espanhol com Ricky Martin, Shakira e Alejandro Sanz (sem falar da Macarena, a rubia en el avión, e, é claro, algum refrão do Dominó). Nos últimos anos da escola, o espanhol era uma matéria obrigatória para facilitar a vida dos futuros vestibulandos (que palavra horrível). No vestibular eu escolhi a prova de inglês. O que acontece é que com o tempo, o que parecia divertido e necessário no passado começou a me bloquear. Tanto é que eu assitia aos estudantes hispanohablantes no Centro de Integração do Mercosul e nem tentava falar em espanhol com eles. Era todo muy parecido, eles estavam no Brasil, tinham que aprender a falar português. Obvio.

Qual não foi a surpresa, quando, em minha primeira viagem a Buenos Aires eu conheci o meu cúmplice. Argentino. ¡E falava inglês! Foram meses de negação e muitos e-mail how you doin'. Só quando decidi morar do outro lado do Río de La Plata é que percebi o tempo que eu tinha perdido (ainda estou falando de idiomas). ¿Sabe aquele papinho de auto-ajuda sobre zona de conforto? Eu tava ali. In English. Eu poderia ter aprendido espanhol e ensinado português, mas não. Aí eu não tinha mais tempo.

Quando recebi a confirmação da pós pedi-pra-sair do meu trabalho e tomei um semestre sabático em casa para organizar a minha cabeça e a tecla SAP (TAP, nesse caso... tun duntz). Leituras, gramática, exercícios... #querofalarmasnãoconsigo. Nada resolvia a insegurança que só foi embora quando recebi a primeira devolução de um trabalho monográfico (tá, nem foi embora, e eu ainda uso como desculpa para explicar porque demoro duas vezes mais que um nativo para fazer as coisas). Eu descobri, escutando, nas aulas e na vida (nutrição, mobilidade), que algumas coisas eu só podia dizer em castellano. E que o segundo segredo para aprender um idioma é esquecer que você não o conhece. Cala a boca, escuta e esquece a gramática. Parece perigoso esquecer a gramática quando você está em um ambiente acadêmico, mas o terceiro segredo é adotar palavras desconhecidas ao seu vocabulário. Quarto... Repita como um papagaio as palavras da moda, incorpore e naturalize os falso cognatos. É um jeito de deixar de falar portunhol. Evite falar instante, ou momento, e diga rato.

No ano passado eu passei o verão trabalhando com um projeto inimaginável pra o meu eu-do-passado: tradução. ¿Moça, mas você não era design designer? Sim, ¿e daí? Mas a proposta era linda: traduzir ao português textos sobre design que estavam ou em inglês, ou em espanhol. Mas eu não sou tradutora. Eu nunca traduzi. ¿Como faz isso? ¡Eu sou uma fraude! Nada disso... Já traduzi sim: na graduação, para amigos, abstracts, até curso disso eu dei, traduzi currículos e citações de autores estrangeiros... A diferença é eu nunca anunciei "sou tradutora", porque eu realmente não sou e respeito a formação alheia. Mas conhecia do assunto a ser traduzido, o projeto era em si um sonho e iam me pagar por isso. Sim, eu disse pa-gar, coisa que com design nem sempre acontece. Pronto, aprendi. Foi então que eu pude perceber o quinto segredo: para aprender é preciso esquecer. Eu já não sabia tanto de português como eu pensava, tive que estudar muito para chegar a um resultado aceitável, e isso não é culpa no Novo Acordo Ortográfico. Em dois anos sem praticar, eu não lembrava de substantivos no meu idioma materno. A ortografia se resolve no editor de texto, que por isso merece um bônus track, sexto segredo: o corretor de texto é o seu meu melhor amigo e é fácil de encontrar open source na rede.

Resumindo e fechando. Aprendi razoavelmente bem o castellano vivendo com o idioma. Agora tenho sotaque local e perdi a vergonha de ter. Adaptei o melhor de cada língua e convivo com o meu cambio constante de TAP, escrevendo mensagens em português enquanto leio textos em inglês para escrever artigos em castellano. [Fortsetzung folgt...]


O mito da concentração

Passei os últimos dias em La Plata, a capital da provincia de Buenos Aires, conhecida por estar planificada racionalmente, em uma grade regular, de paralelas e perpendiculares a 90º. Seguindo essa lógica a mobilidade é (supostamente) bastante facilitada. Além disso, a cidade é totalmente plana e numerada (Rua 1, 2, 3...). O único mistério são as diagonais, com direito ao alerta reiterado pelos locais “não entre em uma diagonal!”.

Como aprendemos em matemática na escola, a menor distancia entre dois pontos é uma linha reta, portanto as diagonais ajudam a mobilidade a pontos mais distantes. Evita ter que dar tantas voltas. Mas é preciso um pouco de atenção, ou concentração. E é sobre isso que eu quero falar.

Há quem diga que sofre com um "problema de concentração". E aliás, isso tem garantido uma boa vida a muitos especialistas em saúde mental. Meu devaneio de hoje é que o “problema” de concentração tem muito menos de “falta” que de “excesso”. Explico. A ideia de concentração parece prever UM dever ser, com a obrigação de continuidade no tempo, quando na prática, o que acontece é que mundo nos interpela, e desperta múltiplos possíveis focos. Micro concentrações. Sequências de concentrações. Excesso de concentração.



Seguindo uma rua de número 53, sempre reto (meu objetivo), as ruas perpendiculares são ascendentes em direção ao sul (10, 11, 12...). Até que surge uma praça. Uma não, duas. Entre as duas praças existe uma avenida de mão dupla, e nenhum semáforo exatamente na rua 53. Um minuto, dois três. Todos os carros do mundo. Frente à impossibilidade de seguir em frente, a solução é ir um pouco mais à direita ou um poco mais à esquerda (minha escolha) até a próxima faixa de segurança... rua 54.

Acontece que existe um meio fio, dois, e muitas pessoas atravessando. Sigo em frente, atravesso três faixas de segurança, até entrar em uma rua. Minha preocupação é não ser atropelada. As perpendiculares seguem aumentando (14, 15). Paro para recarregar meu cartão do ônibus. Sigo em frente (16, 17, 18). Outra praça. Presto atenção para ver onde estou. Cheguei na esquina 61 com 18. Mas eu não entrei na 54? Não. Em algum momento girei o eixo do corpo e entrei em uma (fenda) diagonal.

A demanda de concentrações por segurança, seguir em frente e procurar um lugar para carregar meu cartão não podem ser simplificadas como “falta de...”. Além disso, a cidade é muito charmosa, e para quem não conhece é impossível deixar de concentrar-se nos seus edifícios e paisagens, nos estudantes lendo na praça, nas famílias passeando, no sol do fim da manhã. Se para alguns a concentração está em um livro, para outros ela estás nas distintas espécies de pássaros que habitam a praça, ou no filho que brinca no tobogã, nos casais possíveis compradores de flores. O que menos importa é seguir em frente e não entrar em uma diagonal.  

Interface Truman

Nunca vou esquecer de quando jogamos pela primeira (e última) vez Goin' Quackers, o jogo do Pato Donald pra Nintendo 64. Isso deve ter sido nos idos de 2001/2002. 











Depois de voar, nadar, atravessar paredes, molhar, secar, bisbilhotar salas e andar sem rumo pelos jardins do castelo no Super Mario 64, o pato simplesmente era tão interativo quanto os jogos do Sega Master System III (e olha que eu gostava do Sonic e do Alex Kid). Chegamos todos à conclusão de que não tinha nenhum sentido para que aquele jogo fosse em 3D. Estávamos completamente mal acostumados pela sugestão de uso do tridimensional. Goin' Quackers tinha uma interface decepcionante para o seu tempo, e gerava a triste sensação The Truman Show ao chegar ao fim de um cenário.  

fines

Do lado sério da vida, aprender que a experiência de um processo pode ser mais gratificante que chegar ao fim é uma questão de maturidade. Do lado divertido, a sensação de terminar uma larga etapa também forma parte da aventura (aquele dizer adeus aos próprios medos e dar boas vindas a novos desafios). Em um mês finalizo uma etapa e começo outra, um pouco mais larga, intercortada por alguma burocracia acadêmica e migratória, e toda a ansiosidade que isso possa significar para uma neófita quase profissional, sempre em busca de novos fins.

Quando comecei a cursar a especialização, lembro que, na reunião de abertura, o coordenador do curso enunciou, talvez sem maiores intenciones: "nunca se esqueçam porque decidiram mudar de país". Essa reflexão direcionada aos estudantes estrangeiros, em sua maioria recém chegados, especificamente motivados em estudar, tem acompanhado como uma sombra todas as decisões tomadas por mim desde então.

A euforia do aqui e agora nubla a percepção de que todo o fim está marcado em seu início por uma finalidade motivadora. Chegar ao final sabendo porque começamos (e porque seguir adiante) é parte do motor dessa euforia, e uma oportunidade para olhar pra trás, mesmo no meio da neblina, para entender esse processo. Saber também os meios como chegamos, de forma consciente, ajuda a diminuir a ansiedades dos próximos fins, meios e fins, renovados, justapostos e sobrepostos, em movimento constante.


¡soy contra!

Uma das mais polêmicas questões no âmbito do Design não é formal, é moral: "até onde vai a responsabilidade do designer?". Na verdade isso serve para todo tipo de profissional, mas principalmente àqueles que trabalham com comunicação. Da prestação de serviço inquestionada à cumplicidade de valores, a discussão simplesmente não tem fim já que cada profissional é guiado pelo próprio histórico de clientes e projetos para defender ou relativizar esse impasse.

Há pouco tempo me deparei com um trabalho do ilustrador/artista Joe Magee que adicionou um pouco mais de tempero nessa reflexão. Magee voluntariamente colocou em risco um contrato com um jornal, e obviamente uma fonte de renda, em nome da expressão genuína de sua opinião frente ao posicionamento editorial do mesmo veículo que havia contratado suas ilustrações. A atitude chamou tanto a minha atenção que terminei investigando mais a fundo, direto da fonte, como estudo de caso para um artigo acadêmico. Na biografia do cara estão mais detalhes, com o título "The Daily Telegraph Project, 2002". É impressionante.

Abstinência


Acabo de voltar de viagem, aquela anual e necessária "viagem de férias" para algum-lugar-que-eu-não-conheça, sem importar muito a localização ou a distância. Mas o fato a ser registrado aqui é que prometi pra mim mesma que não iria levar livros, por uma série de razões: a primeira é por um respeito ao ócio, queria aproveitar o tempo fora de casa de forma integral e em atividades ao ar livre. Ler nem sempre é ócio, principalmente depois de passar um semestre lendo "para algo", sem descanso, o que já se mescla com a segunda razão, precisava de um descanso mental. Para terminar, talvez a mais importante das razões seja que tive experiências negativas com chuva, mar, areia e livros. Não foi muito legal.

Bastou estar algumas horas fora de casa para arrepender-me profundamente da decisão. Foram precisamente as cinco horas entre o horário previsto para o embarque e a efetiva decolagem, em uma noite chuvosa, que quase me fizeram desistir e comprar qualquer título em um quiosque, mas resisti. O que em alguns momentos é quase um sofrimento se transformou em necessidade, pra não dizer prazer, e porque não (já que resolvi falar em abstinência), vício. Acabei lendo todos os folhetos e catálogos turísticos que cruzaram o meu caminho (para tapear a síndrome de abstinência a cada situação de espera, chuva ou trânsito).

A fim de coroar o esforço comprei um livro no último dia de viagem, mas só curiosiei o prólogo no ônibus de volta. Pra variar era sobre Design e foi uma leitura mais que prazerosa. As consequências estão no Livros de Design neste fim de mês. Valeu a pena esperar.

Designer, eu? Nunca.


Existem relatos românticos de profissionais que tecem algum tipo de cronologia de suas vidas para contar como sempre souberam o que iriam “ser quando crescer”. Forçando a barra o discurso convence, mas confesso: nunca quis ser designer. Lembro-me de querer (por talvez uns 40s) ser médica como a minha mãe, e não só médica: pediatra. Quando eu era pequena gostava de crianças, prova disso é uma caixa de recortes que eu coletava de revistas e jornais. Havia uma série de fotos e ilustrações de bebês e brinquedos. Eu gostava bastante. E não só gostava de crianças como também, mais tarde, na primeira série (uh!), percebi que ensinar era encantador e pensava em ser professora. Nas reuniões de Pais e Mestres descobri Piaget e o Construtivismo na Educação, por isso aproveitava para testar com a minha irmã mais nova algumas metodologias.

Acho que com uns oito anos, quando ia às aulas de balé, eu já pensava em outras coisas. Imersa naquele universo de ensaios, maquiagem, figurino e cenografia eu tinha a certeza de que queria ser bailarina clássica. Mas não durou muito. Comecei a crescer e me sentia um "patinho alto" no meio do corpo de baile. Não era pra mim, eu deveria é ser modelo de passarela. Comecei a conhecer o meio das agências de moda e o que parecia divertido de longe (viagens, fotos, roupas), de perto não era tão interessante. Eu gostava de foto, mas não me sentia bem sendo fotografada. Gostava dos desfiles, mas me sentia julgada pela observação de todos. Eu não sabia dissimular. Incomodava-me por ser tímida: entrei em um curso de teatro. O resultado dessa experiência foi mais interessante que o anterior, entretanto não deixei de ser tímida. Lembro que embaixo de toda a caracterização do personagem eu me sentia um pouco mais cômoda, mas ainda não era o que eu queria “ser”.

Em paralelo, com a iminência da formatura da escola, escolher uma formação acadêmica era um dever. Pensei bastante. E em um processo de eliminação das profissões que eu realmente não encararia acabei decidindo por Arquitetura. Parecia perfeito (ah, esqueci de dizer: como 90% das crianças do planeta eu gostava de desenhar). Como sempre morei em apartamento, tinha uma obsessão por projetos de ambientes residenciais. Olhava as plantas que saíam nos anúncios do caderno de imóveis e fazia as minhas próprias casas, além de idealizar novas disposições para utilizar melhor o espaço escasso onde vivia. Faltava passar no vestibular. Só esqueci das exatas e perdi o trem dos arquitetos. Em contrapartida, ganhei um ano inteiro para me impregnar de alguma nova certeza.

Antes de me formar havia feito um teste vocacional que apontava para Artes, Audiovisual, Desenho Industrial, Artes Cênicas e Arquitetura. Com as facilidades da internet, além da saga dos recortes, podia pesquisar e me informar sobre cursos de várias universidades. E foi assim que aconteceu. Pensava em Estilismo, mas não encontrava o curso em nenhuma universidade gratuita, busquei desenho industrial, e em uma nota de jornal recebi tudo muito bem mastigado: UFSM e UFPel. Como não poderia deixar de tentar a UFRGS me inscrevi no vestibular para Artes Visuais. Qual não foi a minha surpresa depois do teste de desenho de observação exigido aos postulantes a artista  quando a federal do RS decretou: você não sabe desenhar. Fiquei com a segunda opção que havia escolhido meio às pressas, por eliminação: Publicidade e Propaganda.

O primeiro processo seletivo foi em novembro, para Licenciatura em Artes Visuais – habilitação em Desenho e Computação Gráfica, na UFPel. Eu não sabia o que era uma Licenciatura. Não lembro bem se foi antes ou depois do vestibular que recebi um comunicado do curso que informava sobre a necessidade de modificar a habilitação que eu havia escolhido, já que a Licenciatura ia deixar de existir por questões de falta demanda. Nada contra ser Bacharel nas habilitações plásticas, mas escolhi o Design Gráfico. Aprovei. Fim.

Sério. Eu gostava (a ainda gosto) de o que todo jovem (desse tempo) gosta: cinema, música, hq, animação. E meus recortes não me deixam mentir. Foi assim, meio sem querer. Comecei a cursar e vi que havia sido uma boa escolha. Sempre quis ser tanta coisa, mas designer não. Nunca.

Lixo no lixo?

Existe uma série de conceitos dando voltas por aí que são apenas heranças de tempos desventurados. Palavras que por algum motivo estranho não entram em desuso, enquanto outras sim. Uma justificativa para o desuso pode ser de fundo tecnológico, como quando profissões deixam de existir (datilógrafo, leiteiro, telegrafista), enquanto outras emergem (analista de mídias sociais, gestor de logística reversa, UX designer). No caminho das expressões em desuso, percebo um movimento um pouco tímido para decretar o fim da palavra “lixo”, mas considero louvável. Os resíduos sólidos ainda são vistos como algo insalubre, e nem estou falando de matéria orgânica em putrefação, pode ser a latinha que acabou de voar pela janela do ônibus, e você foi cúmplice. Se não for pago pela prefeitura é muito difícil que tenha ânimo de juntá-la para que tenha um destino mais coerente. Convivemos com uma série de entraves culturais, entre eles: o nojinho. Eu cresci em apartamento, sei do que estou falando. E, como designer, lanço a hipótese de que essa aversão – em cada um – é inversamente proporcional ao desejo material no momento do consumo. E mais, se tratarmos melhor o nosso material reciclável é possível que comecemos a desnaturalizar esse atual caráter de inservível.

Uma dica: em lugar de usar uma lixeira para resíduos secos use uma caixa de papelão, mas não abandone ao lado dos orgânicos, organize por materiais se tiver paciência, mantenha-os limpos. Pode parecer uma insanidade, mas quem recicla com certeza vai apreciar essa sua ação.

(A foto é dos alemães do Njustudio)


Todo mundo tá feliz?

Apresento a você uma sequência de assinaturas que atestam a felicidade:
 

Não é de hoje que a felicidade é pauta na programação da TV, mas particularmente vem-se intensificando os trabalhos durante os intervalos. Lembro que nos anos noventa ela “morava” nas Lojas Colombo, mas depois resolveram que ela deveria estar em mim, ou “em você”. Com o tempo já ninguém sabia por onde ela andava.

Ouvi falar que o Pão de Açúcar era “
Lugar de gente feliz”, o que até faz sentido, já que a felicidade está aparentemente compartilhada dentro das garrafas de Coca-cola. Talvez por isso eu não tenha encontrado a dita, há um bom tempo não me atrevo a “abrir a felicidade”, costumava degustá-la em "pedaços" no Kinder Ovo.

Contudo, ainda tenho minhas dúvidas, agora intensificadas quando fiquei sabendo que “feliz é quem tem GVT”. De duas uma: ou quem tem GVT também ia ao Pão de Açúcar, ou está havendo uma verdadeira democratização do bem distintivo “Felicidade”.


Eu não condeno o consumo, afinal temos necessidades diversas. Desde as fisiológicas mais básicas até as de auto-estima e realização, coloca-se na mesa, ou na bolsa de compras, aquilo que faz bem, é visualmente interessante ou tem utilidade intelectual. Mas essa história de consumo “enquanto experiência” é quase tão irritantemente mal explorada e vazia quando o consumo “pela sustentabilidade”. 

Aprecio os comerciais que arrepiam, isso em datas especiais, esses mesmos, com narração bonitona para o Natal, ou para o Dia da Criança, são lindos. É o exercício de associação da marca a algo positivo e, no interior de cada indivíduo, verdadeiro (a  verdade da própria reação diante do comercial). Já gerar atribuições sensíveis às marcas soa realmente patético. Eu adoraria saber quem realmente está feliz no meio disso tudo. Eu quero ver, tindolelê, nheco nheco, xique xique, balancê.

Diseñadores expertos ¿en qué?

Fiquei feliz com a surpresa do FOROALFA de publicar algumas das minhas inquietações justo no dia do design gráfico: 

"O design é capaz de proporcionar todo tipo de produtos, muito embora nem todas as características específicas de cada projeto possam sempre ser pensadas e desenvolvidas por apenas um profissional. Uma variável simple pode explicá-lo: o tempo." 

 
Una angustia recurrente entre los estudiantes de diseño es cómo insertarse en un mercado que exige de ellos conocimientos cada vez más amplios, abarcando herramientas y conocimientos que ya no son más «de diseño» . Una solución posible, aunque puede parecer rebelde o acomodada, es no insertarse. La formación académica tiene, o debería tener, un papel de incentivar emprendimientos propios. Así, no insertarse significa crear un nuevo mercado, sin abdicar del oficio, en lugar de hacer pasantías de carácter dudoso.
Lo que uno nombra como equipos multidisciplinares es la esencia del éxito de muchos «colectivos» que surgen, a veces, de forma inocente y en su mayoría por necesidad. Unirse a conocidos para la viabilidad de una idea no es ninguna obra de gran genialidad. En realidad, la buena relación con los especialistas que pueden no ser parte de los colectivos, y sí colaboradores (carpintero, ilustrador, redactor, fotógrafo, artesano, programador, luminotécnico, arquitecto, ingeniero), es una clave para aprender a emprender, ofreciéndose más y mejores servicios (y seguro ellos no temen que les saquen el trabajo por observar y hacer preguntas acerca de su praxis).
La parte triste es que la noción de especialista en el ámbito del diseño cada vez más pierde su prestigio y la idea de que la esencia del diseño está en el proyecto, reductible y unificante; la idea de que uno puede hacer lo que quiera con su dominio —desde una comunicación, como un pictograma, hasta un artefacto o ambiente—, viene deformando la noción profesional en dos aspectos:
  1. el comercial, que imagina que un estudiante puede trabajar como pasante y ser «el-todo-en-uno»,
  2. el estudiante, que teme no poder ser tanto, y sufre con la angustia de no cumplir las expectativas.
Sí, el Diseño es capaz de proporcionar toda clase de productos, aunque no todas las características específicas de cada proyecto puedan siempre ser pensadas y desarrolladas por un único profesional. Hay una variable simple para explicarlo: el tiempo. Tiempo de estudio formal e informal, experiencia en Diseño y en la vida en general, investigación y retención de conocimiento, así como el tiempo efectivo para la producción en respuesta a una solicitud, que no tiene la costumbre de ser muy largo.
A los estudiantes: lo importante es no tener miedo y estar abierto a un intercambio de experiencias. No se desesperen. Oficinas de diseño pensadas por diseñadores pueden ser creadas por ustedes mismos, con distintas vocaciones, compañeros en una clase mixta, por más generalizada o especializada que sea su formación, y con el tiempo estarán más seguros de arriesgarse, sabiendo que tienen el apoyo de una serie de profesionales que les pueden asesorar. Diseñadores expertos en trabajar en equipo, con resultados menos autorales y con más foco en las necesidades del usuario.


Ajuste

As piores promessas são aquelas silenciosas, que um faz pra si mesmo quase em segredo. Contêm qualquer urgência, nem sempre calculável, e ainda algum medo de falhar. Creio que tirei a sorte grande uma vez que a “roda-viva” tem-me levado a caminhos bastante interessantes, com pessoas que compreendem o meu tempo. Até porque, o tempo segue a tua (própria) pulsação, enquanto o trabalho é capaz de atuar como um marca-passo. Duvida?

Explico: ainda que eu compactue com a ideia de que o trabalho te mantém são e vivo, ele tem que ser vocacional, honesto (com a tua verdade), caso contrário algo artificial pode seguir pulsando solitário e independente no teu peito, enquanto a vida, aquela que faz parte do segredo, já era. 

Bom, é aí que entram as promessas. Elas carregam consigo uma verdade a vácuo, dizem quem és, o que desejas em tua vida, ou melhor, o que queres permitir pulsar em teu peito.

PS.: escolhi cuidar do meu tempo, na minha própria frequência cardíaca, do meu jeito.

Sem compromisso

Bueno, "a novidade é boa". Desde que ela não seja uma má notícia. Mas eu não falo da novidade como notícia, e sim como percepção do novo. Aquilo que te prende por alguns segundos com uma sensação de descoberta e/ou de prazer. Agora, mais um aforismo eletrizante: "sem compromisso é mais gostoso". Não sei porque, mas parece que exercitar é muito mais fácil que fazer pra valer. Ok, até sei. A hora da verdade envolve razões que a própria razão de designer desconhece: orçamento, fornecedor, hierarquia, humor, gosto, et cetera.

Passei as minhas férias incrivelmente sem pensar em design. Li um romance, viajei, li quadrinhos... (mas eram sobre música, então não vale). A angústia de não me alimentar de design foi dissolvida entre outras preocupações e ocupações, como: onde estou?, o que vou comer?, será que chove?, e, vai dar com esse dinheiro?

Antes mesmo que comece o carnaval, voltei à minha ocupação essencial, e devo comentar que por muitas vezes perco completamente o sono com esse tal de design. E o pior é que são ideias em turbilhão. O meu horário mais criativo começa quando decido dormir, e definitivamente não consigo. Cerca de três ou quatros horas projetando silenciosamente. Qualquer coisa. Desde meu futuro escritório ideal, até infográficos sobre a história da teoria do design. Mas são projetos de gaveta. Não estão na lista de prioridades do momento, relegadas à penumbra. Ficam apenas no travesseiro. Raramente me rendo e busco um lápis para registrar algum pensamento que tema ser esquecido. Mas é tão bom. Tenho medo de realizar tudo o que idealizo e não sobrar mais nenhuma motivação sem compromisso. Inexplicavelmente sempre parece novo e genial o primeiro pensamento da noite, depois torna-se irrelevante, mas a sensação em si é boa.




Afinal de contas, de que somos feitos, senão de um punhado de sensações?!

diseños y Diseños

Neste mês saí pra relaxar/abrir a cabeça. Três semaninhas. Um presente de aniversário. Fiz bem. Não queria voltar, mas o dinheiro ficou curto, tão curto que no fim das contas nem era mais meu. Entretanto, sempre são (no mínimo) boas as minhas causas:
  • Conheci o CMD (Centro Metropolitano de Diseño) durante o Festival Internacional de Diseño, e com isso uma série de mostras, de todo o mundo, sobre os temas mais diversos. Mas isso não foi nada, bom mesmo foi comer um choripan na calçada, do outro lado da rua, feito por um señor chileno e falador, que conhece o mundo inteiro, trabalhou com um milhão de coisas e defende a teoria de que um bom lugar para viver é onde há boa mesa (escolheu a Argentina).
  • Fui contada no Censo de Buenos Aires e fui ao velório do Kirchner, (e/ou) fiz o caminho mais longo para se caminhar cinco manzanas. Quase choveu, quase fez muito frio, quase não havia ninguém na Casa Rosada às 6 da manhã, mas eu entrei lá, e escaniei visualmente todo e qualquer detalhe. Passei a noite de pé, ao lado de alguém que amo, pensando em que idéia maluca foi essa de querer ser cúmplice da história.
  • Conheci o Tamar, vi as tartaruguinhas todas, mas isso não se compara a caminhar na praia com a minha mãe, como se não existisse um amanhã, e voltarmos devido ao bom senso mútuo, antes que as lembranças pudessem não ser tão boas.
  • Aproveitei uma manhã de sol para ir à biblioteca da UFSC vasculhar as prateleiras de design, estética e arte. Passei uma noite assistindo Tv Cultura.
De volta, chegaram os livros que encomendei no início da Primavera. Um capítulo à parte para ser desenrolado mais a diante. Já escrevi bastante.


Maçã Folhada

Bloco de notas autocolante com perfume de maçã verde para o dia do professor :)


Dia da Música

Em homenagem ao dia da música fiz uma brincadeira handmade a um amigo que já havia demonstrado o desejo de ter um "cadernote". Este é um caderno temático feito nas medidas de uma fita K7, e, portanto, vem embalado em uma caixinha, dessas clássicas, que todo mundo acabava quebrando antes mesmo de escutar o lado B.

Histórias Curtas

Eu havia comentado em Design and Crafts sobre um caderninho que eu fiz e agora vou poder vê-lo em cena. É o bloco de anotações do detetive, ninguém vai perceber, só eu, mas vou apontar e ficar dizendo "olha, alí na mesa, debaixo da mão dele". Tudo bem, ainda estão por vir meus dias de Aardman e Touchstone Pictures.

Veja o trailer: 
Quando: dia 02 de Outubro (depois do Jornal do Almoço na RBSTV).